dois torresmos

por favor, seu gilmar,
um torresmo e uma coca pequena

o velho do outro lado quer dois reais de balas sortidas
cinco sabores, cinco cores
meia dúzia de netos

o cara do lado,
que trouxe a nova máquina
de cartão do bar e lanchonete asa branca,
riachuelo, 97, vila operária, cidade canção,
não segurou a contraindicação médica:
me vê um torresmo, seu gilmar,
cravou

ninguém se arrependeria
de tal decisão; jamais se arrependerá

espetos na churrasqueira
mesas na calçada
bolinho de carne em falta,
logo na sexta, seu gilmar?

a loira adentra ao recinto
sua dieta encara nossos lábios sujos
de gordura de porco
seus olhos sentenciam o horror de não poder
cair de boca no naco de suíno

smirnoff ice
logo no boteco?
com a negativa, pagou o amendoim apimentado
e apressou-se rumo à brasil tomar a condução

me vê outro torresmo, seu gilmar,
pedi, com o bigode brilhoso

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quanto mais acossado, mais respira

queimo as horas nesses pedaços
pequenos de papel
eletrônicos notificam a todo instante
coisas que não preciso saber

o resto de fumaça foge da boca
em meio às palavras ditas a mim mesmo:
é preciso ter voz própria

tento seguir pistas, migalhas de ideias
me persigo por esses labirintos
entre os ponteiros do relógio de pulso

ataco, atormento-me pela insistência
nas palavras: é preciso ter vontade própria