escapa

e se eu te dissesse,
assim como ouvi, que
a morte poderia ser um casaco que cai do cabide
dentro do guarda-roupa?

um mínimo deslize
suave escorregão
se puder, não me avise,
deixe-me cair além do chão

que vida há num guarda-roupa
senão ser comido por traças?

o casaco que se dizia
de grife esperou até ser escolhido
uma pena não ter te segurado
aquela apressada mão

quanto mais acossado, mais respira

queimo as horas nesses pedaços
pequenos de papel
eletrônicos notificam a todo instante
coisas que não preciso saber

o resto de fumaça foge da boca
em meio às palavras ditas a mim mesmo:
é preciso ter voz própria

tento seguir pistas, migalhas de ideias
me persigo por esses labirintos
entre os ponteiros do relógio de pulso

ataco, atormento-me pela insistência
nas palavras: é preciso ter vontade própria